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CNI: inovação impacta a sociedade e vai além de invenções tecnológicas

13 de Outubro, 2021 | Acontece nas Casas | Indústria | FIEMS | CNI

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Graças ao compartilhamento de informações sobre a Covid-19, a grandes investimentos e a um gigantesco trabalho contra o tempo de inúmeros laboratórios, as primeiras vacinas foram aprovadas em menos de um ano. Antes dessas vacinas, a que foi desenvolvida mais rapidamente foi a da caxumba, que levou quatro anos para surgir, na década de 1960. Ao contrário do que algumas pessoas acreditam, todas as etapas de testes foram cumpridas antes da aprovação das vacinas anti-Covid. O segredo para tamanha agilidade está na tecnologia e nos investimentos aplicados. Para chegar aos atuais rigorosos processos de desenvolvimento de imunizantes, a inovação foi fundamental.

O surgimento da primeira vacina do mundo – ao menos com este nome – data do século 18. O cientista inglês Edward Jenner buscava uma solução para proteger as pessoas da varíola, enfermidade que assolava a população mundial havia séculos. Ao descobrir que trabalhadores da zona rural não apresentavam sintomas graves da doença porque já haviam sido contaminados com a varíola bovina, ele decidiu investigar essa relação. Foi então que, em 1798, Jenner percebeu que a inserção do vírus bovino, de nome Variolae vaccinae, protegia o organismo das pessoas. Daí a origem da palavra vacina, que significa, em latim, “da vaca”.

A inovação, portanto, está por todos os lados e pode começar em qualquer lugar, como em uma fazenda, em uma sala de aula, na cozinha ou num passeio no parque. Você mesmo deve ter acordado hoje após ouvir o alarme do celular. Foi ao banheiro, tomou banho, abriu a geladeira. Esquentou a água para o café, sentou em frente ao computador ou dirigiu-se ao trabalho. Essa rotina é tão natural que nem paramos para pensar na origem dessas invenções que utilizamos diariamente: elas surgiram da inovação demandada por necessidades. 

Até hoje, a palavra inovação é acompanhada pelo estigma da tecnologia de ponta, de laboratórios de última geração, produtos revolucionários e pesquisas em universidades. Contudo, ela vai além, porque pode estar na reorganização de pessoas e máquinas em uma fábrica para otimizar a produção, na implantação de um novo modelo de negócio ou no desenvolvimento de uma metodologia que seja mais eficiente do que a tradicional.

Prova disso é a CCLi Consultoria Linguística, fundada em 2003 em São José do Rio Preto, interior de São Paulo. A ideia de criar a primeira consultoria linguística do país, segundo seu diretor e fundador, Daniel Rodrigues, resultou de uma inquietação pessoal com o modelo de ensino de línguas no Brasil. Apaixonado pelo inglês e formado em Letras, Daniel investigou no  mestrado por que o brasileiro estuda tanto, mas fala pouco o idioma.

“Aqui os alunos sempre se adaptaram aos métodos da escola. Assim, em vez de abrir uma escola tradicional, o que fizemos foi adaptar o modelo de trabalho de consultoria, que tem foco no resultado, para a área de línguas”, explica Daniel.

O diferencial de seu negócio começa na matrícula. Na maioria das escolas de idiomas, o estudante faz uma prova de proficiência para saber o nível em que está e, em seguida, inicia as aulas. Na CCLi, a primeira ação é entender o perfil da pessoa, seus objetivos e suas necessidades com o idioma que quer aprender, para então montar um programa de estudos e medir o sucesso desses objetivos.

Em 2010, quando as aulas online ainda sofriam com certo preconceito por parte da sociedade, a CCLi iniciou um programa de aulas por Skype, até mesmo para que empresários, um dos principais públicos da consultoria, pudessem seguir em contato com o idioma, mesmo durante viagens a negócios. Entre 2018 e 2019, 50% de toda a carteira de clientes já era formada por optantes dos projetos de aprendizagem via videoconferências.

A metodologia diferenciada da CCLi foi, inclusive, vencedora da categoria Inovação em Processo, na modalidade pequena empresa, do Prêmio Nacional de Inovação 2019, iniciativa da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), coordenada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

“Entre os alunos que tiveram aulas com a nova metodologia, 98% são aprovados em provas de certificação de idiomas como o TOEFL”, destaca Daniel Rodrigues. Atualmente, com a realidade alterada pela pandemia, 90% dos alunos da CCLi têm aulas a distância, e o negócio segue em expansão por todo o Brasil.

“Nossa inovação não foi tecnológica; foi metodológica. Pra mim, inovação é aquela ideia desenvolvida para o negócio que gera impacto nos seus resultados, e isso não se restringe aos financeiros. Pode ser para a qualidade de vida da equipe, para a lucratividade ou para gerar uma visão integrada”, destaca o fundador da consultoria. 

Soluções para a sociedade

O conceito de inovação é amplo e pode ser visto sob diferentes aspectos. Inovar é introduzir novidades ou mudanças em algo, transformando uma ideia em solução com criatividade. 

Sob o ponto de vista empresarial ou industrial, uma das melhores definições de inovação foi dada pelo escritor e professor austríaco Peter Drucker, um dos maiores pensadores sobre os efeitos da globalização na economia e nas organizações. Segundo ele, inovar é simplesmente a habilidade de transformar algo já existente em um recurso que gere riqueza. 

Numa visão mais aplicada, o superintendente de Inovação do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), Jefferson Gomes, considera que as grandes inovações que surgiram e continuam surgindo no mundo são resultado da luta do ser humano contra três problemas: a fome, as pestes [doenças] e a falta de segurança. A partir daí nasceram a biotecnologia, a inteligência artificial, a bionanotecnologia e muitas outras inovações relacionadas às necessidades da sociedade atual, que naturalmente exige mais mudanças no mundo.

“As pessoas vivem até os 100 anos com mais facilidade. Antes elas viviam duas gerações; hoje podemos viver cinco gerações diferentes e com comportamentos distintos de consumo provocados pela variação etária”, destaca Gomes, que é engenheiro, é professor do Instituto de Tecnologia Aeronáutica (ITA) e tem pós-doutorado na área de manufatura.

Segundo ele, o setor mais avançado no Brasil quando falamos de indústria 4.0 ou manufatura avançada é o automotivo. Isso, entretanto, não se deve apenas ao fato de as fábricas utilizarem máquinas modernas, mas sim a todo o processo de produção e alcance das pessoas. 

“A indústria 4.0 congrega a relação do consumidor e o setor automotivo, apesar de estar em um profundo questionamento, consegue entender, em tempo real, as variantes do mercado para fazer uma produção customizada levando em conta a diversidade", diz. 

Tecnologias do futuro

Especialistas acreditam que, nos próximos anos, inteligência artificial, Big Data e 5G impulsionarão, de vez, a Internet das Coisas, seja em nossos lares, em hospitais ou em cidades inteligentes. Entretanto, com isso, surgem outras preocupações, como a necessidade de regulamentar globalmente a proteção de dados e promover tecnologias mais sustentáveis para o planeta.

Em meados de agosto deste ano, a fabricante brasileira de aeronaves Embraer anunciou que pretende ser carbono neutra até 2040. Para alcançar essa meta, desenvolverá uma ampla gama de produtos, serviços e tecnologias sustentáveis disruptivas, como eletrificação, híbrida, Combustível Sustentável para a Aviação (SAF) e outras energias alternativas inovadoras. 

“Estamos intensificando nossos esforços para minimizar nossa pegada de carbono ao permanecermos dedicados a soluções inovadoras que tenham um impacto mais amplo para nossos clientes, as comunidades locais e nossas aeronaves”, anunciou o presidente e CEO da Embraer, Francisco Gomes Neto.

Casos como o da Embraer, tida como uma das empresas mais tecnológicas do país, no entanto, ainda são minoria – apesar de os empresários brasileiros reconhecerem a importância de investir em inovação. Pesquisa divulgada em julho de 2020 pela CNI revelou que 83% das indústrias acreditam que precisarão de mais inovação para sobreviver neste momento pós-pandemia.

Além de aumentar a competitividade, a inovação gera riquezas para o país. Contudo, nos últimos dez anos, o Brasil patinou entre a 47ª posição e a 70ª no ranking do Índice Global de Inovação (IGI), colocação que não condiz com o fato de ser a 12ª maior economia mundial. Entre os caminhos apontados para tornar o Brasil mais inovador está o fortalecimento da qualificação profissional com foco nas novas tecnologias.

 “Um dos maiores desafios para que tecnologias disruptivas – como inteligência artificial, Big Data e machine learning – tornem-se dominantes nos diversos setores da economia é a disponibilidade de recursos humanos qualificados para conceber e operar essas novas ferramentas”, destaca o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade.

Ampliar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento é urgente, na opinião de Thomas Mason, diretor do Laboratório Nacional Los Alamos, uma das maiores instituições de pesquisa do mundo, vinculada à rede de laboratórios nacionais do Departamento de Energia do governo norte-americano. “Criar conhecimento é fundamental para processos de construção de tecnologias. Isso permite a descoberta de novas estratégias e cenários que podem ser replicados pelo mundo”, disse Mason na última reunião da MEI, em agosto. 

Inovação em sala de aula

Sempre vale destacar que inovar não é, nem de longe, uma aptidão exclusiva de mentes brilhantes. Ao contrário do tal “momento Eureka” – termo que teria sido criado pelo cientista grego Arquimedes ao fazer uma grande descoberta, batizada de Princípio de Arquimedes ou empuxo –, a inovação depende de processos bem definidos. Estes dependem de observação, muita pesquisa, questionamentos e, principalmente, liberdade de sugerir ideias sem preconceitos.

Essa foi a fórmula utilizada em 2018 por estudantes do Serviço Social da Indústria (SESI) Canaã, em Goiânia, para desenvolver o que eles chamaram de “chiliclete”. Ao participar do Torneio SESI de Robótica, os jovens, que tinham entre 14 e 15 anos, foram desafiados a pensar em como resolver questões relacionadas a uma viagem ao espaço.

Em suas pesquisas, eles descobriram que um dos efeitos da falta de gravidade nos astronautas é a perda de sensibilidade do nariz, o que reduz drasticamente o olfato e o paladar. A inovação surgiu, então, de algo que está bastante presente no prato do brasileiro: a pimenta, que seria capaz de desbloquear as células do nariz e da boca, fazendo com que o odor do alimento fosse perceptível novamente para a célula. “Como resultado, é possível sentir novamente o sabor do alimento”, disse em entrevista, à época, a estudante Ana Sofia Gonçalves, membro da equipe Gametech Canaã.

A decisão de criar o chiliclete surgiu após conversas com endocrinologistas, químicos e pesquisadores e depois de testes em laboratórios da Universidade Federal de Goiás (UFG). Assim, os jovens encontraram a dose certa do condimento que deveria ser inserido no chiclete para, então, criar uma solução inovadora, barata e simples.

Graças ao projeto, a equipe de estudantes foi uma das vencedoras do Festival SESI de Robótica de 2019 e a campeã do torneio de robótica promovido na Universidade da NASA, em West Virginia, nos Estados Unidos. A inovação chamou a atenção da Agência Espacial Brasileira (AEB) e os alunos acabaram sendo homenageados numa cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília.

Foi dessa mesma equipe, embora com diferentes integrantes, que surgiu, em 2016, outro projeto inovador: o Plastisseiro. O projeto reutilizava sacolas plásticas e copos descartáveis na produção de travesseiros, almofadas e estofados e foi idealizado como substituto das espumas nos travesseiros tradicionais, destacando-se por ser um produto de baixo custo, ergonomicamente correto e antiácaro. Para fazer um travesseiro, os estudantes trituraram, em uma máquina específica, 139 copos plásticos e 340 sacolas.

Ensinar a ser inovador não é tarefa simples, mas o SESI tem implementado, há mais de uma década, metodologias com esse objetivo em sua rede de mais de 500 escolas em todo o Brasil. Faz isso por meio de torneios de robótica, competições que estimulam a criação de projetos inovadores, e  pela reformulação do programa de ensino com foco em STEAM – sigla em inglês que contempla Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática –, áreas de conhecimento que devem ser prioridade na formação e precisam ser trabalhadas conjuntamente.

Para o professor de Matemática e então técnico da equipe de robótica do SESI de Goiânia, Flamarion Gonçalves Moreira, o mais importante é dar liberdade de pensamento às crianças e aos adolescentes. “Temos que orientá-los a usar a imaginação, a ter a mente livre, a nunca reprimir uma ideia, e incentivá-los a seguir questionando tudo a seu redor, pois a ciência não é algo pronto”, explica o professor. 

Sequenciamento genético

Os avanços na área da biotecnologia têm provocado grandes transformações nas políticas públicas de promoção à saúde e na preservação ambiental. Exemplo disso é a iniciativa inédita de pesquisadores do SENAI e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que se uniram para realizar o sequenciamento genético do bioma do Pantanal. 

A parceria faz parte do Consórcio Multisetorial para o Pantanal: sequenciar para preservar. Além do SENAI e da Fiocruz, universidades, ONGs e empresas privadas também formam o consórcio. 

O SENAI contribuirá com o sequenciamento (meta)genômico das amostras ambientais e, por meio do sequenciamento genético, será possível mapear a biodiversidade (bactérias, arqueas e eucariotos) de áreas incendiadas e não incendiadas, o que servirá para conhecer o impacto dos incêndios na biodiversidade do Pantanal. Uma vez conhecido, será possível discutir melhores políticas públicas para a conservação e preservação das espécies mais impactadas e do Bioma como um todo.

“O Instituto SENAI de Inovação em Biossintéticos conta com uma plataforma de sequenciamento com equipamentos únicos no Brasil, a exemplo de um sequenciador de fragmentos longos de DNA. Em um processo computacional, ele é capaz de montar todas as partes do quebra-cabeça”, explica Marcelo Victor Moura

Responsável pela área de Biotecnologia do SENAI CETIQT (Centro de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil), ee conta que o Instituto também possui robôs para fazer bibliotecas genômicas, bioinformatas e toda uma estrutura para analisar os dados a serem coletados.

O convite para participar de um projeto dessa magnitude, liderado pela Fiocruz, é um importante indicador da qualidade do trabalho que a rede de Institutos SENAI de Inovação, composta por 26 unidades no país, tem realizado. Desde sua criação, em 2013, mais de R$ 1,2 bilhão foram mobilizados em 1.332 projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I). A estrutura tem mais de 1.300 pesquisadores, que atuam com foco em pesquisa aplicada para o desenvolvimento de novos produtos e soluções customizadas para empresas. 

Congresso de inovação

Os Institutos do SENAI fazem parte de um grande ecossistema desenvolvido pelo Sistema Indústria para impulsionar a inovação no Brasil. E, justamente para fomentar o debate sobre a inovação, será realizado, no dia 20 de outubro, um evento prévio de lançamento da 9ª edição do Congresso Brasileiro de Inovação.

Organizado pela CNI e pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o congresso é o maior evento nacional sobre o tema. O evento de lançamento será virtual e terá como grande atração o estadunidense Steve Wozniak, engenheiro eletrônico e cofundador da Apple, que falará sobre o futuro da inovação.

No dia 20 de outubro, haverá a antecipação de novidades do Congresso de Inovação, realizado a cada dois anos, em parceria entre a CNI e o Sebrae, tendo a última edição ocorrido em 2019. Em função da pandemia, o formato foi alterado e a data, que seria em 2021, transferida para março de 2022, em São Paulo.

Com inscrições abertas, o lançamento será uma prévia do Congresso e reunirá especialistas de cinco continentes. Eles refletirão sobre como a inovação uniu o mundo a partir da pandemia de Covid-19, levando as experiências de suas regiões no enfrentamento dos grandes desafios globais, como a pobreza, as mudanças climáticas e as guerras.

“O Congresso busca contribuir para que a inovação seja incorporada à estratégia das empresas e ampliar a efetividade das políticas de apoio à inovação no país”, afirma Gianna Sagazio, diretora de Inovação da CNI.